Wednesday, May 28, 2008

Sem tesão não há solução


O escritor e psicanalista Roberto Freire morreu na semana passada, aos 81 anos, na casa de repouso onde havia se recolhido por vontade própria há alguns anos.

Deixou vários livros e um método terapêutico ainda muito incompreendido nos meios acadêmicos: a Somaterapia.

Na minha opinião, seu maior legado foi o axioma sem tesão não há solução.


Assim como a Somaterapia, essa sua afirmativa sofreu muito preconceito. Imagino que isso se deveu à palavra “tesão”, que leva as pessoas a pensarem imediatamente em sexo. 

Mas não é apenas “naquilo” que Roberto Freire pensa quando faz essa constatação. É muito mais.

Ele nos lembra que na vida nada vale a pena se não for feito com paixão, com vontade, com prazer e integridade.

A começar pela profissão que escolhemos. Jamais seremos felizes e bons profissionais se não curtirmos o que fazemos.

Você se levanta da cama para ir trabalhar com a disposição de quem vai para a forca? Os acordes da trilha sonora do Fantástico, nas noites de domingo, lhe dão um aperto no coração? Algo está errado com sua escolha profissional.

Houve uma época em que eu trabalhava apenas por necessidade financeira em um local que não me agradava. Parecia uma prisão domiciliar ao contrário. Eu saía de casa todo dia para cumprir minha pena na “cadeia” e voltar, à noite, para o aconchego do lar. Não era fácil.

Conheço muita gente infeliz com a profissão, mas que precisa sobreviver e não tem como mudar de emprego - ou ramo, como se dizia antigamente.

Tive a oportunidade conhecer, também, pessoas felizes com o trabalho que escolheram - ou, vá lá, que tiveram a sorte de conseguir, pois, admito, isso não é fácil.

Lembro de um velho jornalista que cobria política para o Estadão, direitista convicto. Ele não apenas gostava do que fazia, mas sentia um prazer especial quando tinha de escrever algum artigo criticando políticos do antigo Partido Comunista Brasileiro.

- Além do prazer de escrever contra os comunas, ainda ganho para fazer isso”, regozijava-se.

Depois de algumas palestras e conversas com Roberto Freire (o “Bigode” para os íntimos), passei a entender melhor sua proposta e a defendê-la junto às pessoas mais próximas.

Passei, inclusive (quem diria?), a defender o trabalho. Mas o trabalho prazeroso, criativo, livre, não o escravo, opressor, apenas pela obrigação. 

Um dia, na hora do almoço, explicava a meu filho mais velho (na época, pré-adolescente) a importância de escolher, no futuro, um ofício que ele gostasse, que lhe desse prazer, acima de tudo.

Confesso que sua resposta me deixou um pouco desconcertado:

- Ih, pai, então minha profissão vai ser ponta-esquerda!



Ame e dê vexame

“Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta”.

Este é um trecho de uma crônica de Roberto Freire (foto) sobre o amor. Clique aqui para lê-la na íntegra.




Leia também

Crônicas novas de Tutty Vasques, Ivan Lessa, Carlos Brickmann e Frei Betto estão na seção LEIA TAMBÉM, na barra direita desta página.



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Posted by JLT at 20:08:15 | Permalink | Comments (22)

Thursday, May 22, 2008

Sinal dos tempos


Fiquei impressionado, segunda-feira passada, ao levar minha mãe a um hospital aqui perto de casa.

A identificação dos pacientes, na recepção, é feita pela colocação dos dedos em um sensor que registra suas impressões digitais.

Isso me fez prever que, em breve, não usaremos mais documentos, cartões de crédito e tampouco dinheiro.


Pagaremos nossas compras no supermercado, abriremos crediário nos grandes magazines, provaremos ter licença para dirigir ao guarda-rodoviário, nos identificaremos em repartições públicas simplesmente colocando nosso polegar sobre um pequeno leitor cibernético.


Fico a imaginar que maravilha passear pelas ruas, ir à praia, tomar ônibus, almoçar no “quilinho”, pegar um cineminha, tudo isso sem precisar andar com carteira de identidade, cartão do banco, notas de papel e muito menos as inconvenientes moedas no bolso.

Toda nossa movimentação bancária passaria a ser feita só com um leve toque digital. Você recebe algum valor, transfere para sua conta, aplica, gasta, usando apenas seu polegar.

Quanto é? 50 reais. Débito ou crédito? Débito. A mocinha digita o preço, você pressiona o dedão e pronto. Ela nem precisa virar o rosto para não ver sua senha. E você nem precisa conferir, de soslaio, se ela está mesmo olhando para o outro lado.

Nossas roupas não terão mais bolsos e - ora viva! - será o fim das bolsinhas capanga e das pochetes - só por isso a nova tecnologia já valeria a pena.

Não teremos mais crianças pedindo esmolas nos semáforos, não teremos mais flanelinhas pedindo para olhar o carro. Não teremos mais trocados.

E o que é melhor ainda: não haverá mais assaltos, sequestros relâmpagos e aqueles horrorosos caminhões blindados sobre as calçadas.

Sim, será preciso inventar algum dispositivo que nos proteja da mutilação pelos ladrões, pois nesse caso ficam os anéis e vão-se os dedos.

O Manoel da padaria da esquina (perdão pela redundância) acha que isso não ocorrerá, pois, mutilado, o dedo fica frio e não aciona o sensor. Se for assim, nossos problemas estão resolvidos.

Uma amiga observou que isso já está previsto no Apocalipse. Ela não se lembra do capítulo nem do versículo, mas jura que está escrito. “Tudo está escrito”, garante. 

O sinal dos tempos virá quando cada  homem for identificado pela Besta com um número tatuado no punho, ao mesmo tempo em que tragédias começam a ocorrer no mundo inteiro.

Depois dos terremotos, furacões, enchentes e tsunamis pipocando pelo planeta e desse leitor digital que vi segunda-feira passada, acho que ela tem razão.



I-Phone

O que diria Ivan Lessa sobre essa nova tecnologia de identificação digital? Provavelmente a criticaria, pois na crônica selecionada desta semana já desce a lenha no iPhone. Acesse o link para a crônica do Ivan Lessa na seção LEIA TAMBÉM, na barra direita desta página.



I-Best?

O Prêmio Ibest divulgou ontem, dia 20, o resultado dos sites mais votados do concurso deste ano. Mas deu a relação apenas dos três primeiros lugares. Esperava que dessem a votação de todos os participantes. Assim poderíamos saber quantos votos teve este modesto EscutaZé!

Quando eles pararam de dar a colocação cada blog (o que tirou a transparência da eleição), o EscutaZé! estava em 14º lugar de sua categoria, com chances de chegar a 10º na reta final.

Assim sendo, enquanto o pessoal do Premio Ibest não divulga os resultados totais, vou auto-proclamar o EscutaZé! como Top Ten. Eles que provem o contrário.


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Posted by JLT at 02:42:08 | Permalink | Comments (25)

Wednesday, May 14, 2008

Floresta ameaçada

 

Marina Silva pediu demissão do cargo de Ministra do Meio Ambiente.

É mais uma guerreira que tomba diante dos grandes interesses econômicos. 

Sucessora de Chico Mendes, ela era acima de tudo um ícone da resistência verde.

Na luta pela preservação da Floresta Amazônica, estamos dando um passo para a frente e dois para trás.

Há uns dez anos viajei pelos rios Negro, Amazonas e Tocantins.

Fiquei otimista em ver brotar no meio da selva hotéis rústicos, destinados a turistas ávidos em conhecer a natureza em seu estado mais primitivo.

Nessas pousadas não há eletricidade, telefone, televisão e outros apetrechos urbanos.

Mas os hóspedes podem contar com todo o conforto necessário para passar alguns dias em contato direto com a floresta praticamente virgem.

Em sua maioria, os turistas em busca desses roteiros são europeus e japoneses que pagam uma fortuna para ver de perto a fauna e a flora da última grande floresta do mundo.

De dia andam por trilhas no meio da mata, nadam em igarapés e, à noite, fotografam crocodilos. Se derem sorte, podem cruzar com um boto-cor-de-rosa no caminho.

É um passagem pelo túnel de tempo, uma visita emocionante ao primitivo.

Imaginei que o futuro da Amazônia estava resolvido. Sua vocação era uma só: o turismo internacional.

Os nativos da floresta viveriam dos euros, dólares e ienes trazidos pelos estrangeiros de todas as partes. E o que é mais importante: criariam a consciência de que quanto maior a preservação, maior o lucro.

Não vi, entretanto, essa idéia progredir. Ao contrário, de lá para cá Chico Mendes foi assassinado, aumentaram as queimadas e o corte ilegal de madeira.

Restava uma esperança, ainda que franzina: Marina Silva, ministra do Meio-Ambiente, nossa ‘guerrilheira-verde’, defensora da sustentabilidade, legítima representante dos povos da floresta. Não resta mais nada.

A exemplo da Amazônia, também o governo parece estar sendo devastado.



Abolição

A propósito da efeméride de ontem, aniversário da libertação dos escravos, não pude deixar de selecionar para vocês, meus poucos mas bons leitores, outra crônica de Machaco de Assis sobre esse tema.

Clique aqui para ler mais essa pérola da nossa Literatura.




Leia também

Desde Londres, Ivan Lessa nos revela uma salutar novidade esta semana: quem tem a bunda grande tem mais saúde.

O link para a crônica de Ivan Lessa está na barra direita desta página, na seção LEIA TAMBÉM.


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Posted by JLT at 21:56:54 | Permalink | Comments (31)