Nossos problemas acabaram
Esperava ver muitas coisas inusitadas ainda nesta vida.
Por exemplo, poder fazer um download no meu computador e interagir (para dizer o menos) com a Sharon Stone.
Jamais, porém, imaginei que presenciaria o fim da nossa dívida externa.
Por tudo o que li e ouvi ao longo desta brilhante existência, deduzo que, finalmente, nossos problemas acabaram.
Desde os tempos de estudante (na época em que os bichos falavam), aprendi que nós, brasileiros, já nascíamos com dois pecados originais:
O primeiro, por Adão e Eva terem cedido à tentação da serpente; o segundo, pela mania de nossos governantes em tomar dinheiro emprestado.
Nem bem deixávamos o saudoso útero materno e já estávamos condenados ao inferno e devendo na praça.
E a cada dia que passava, à medida que aprendíamos a pecar e a consumir, essas dívidas aumentavam.
A dívida externa começou, imagino, com Dom João 6º - ao ser financiado pela Inglaterra para escapar de Napoleão.
E foi crescendo, crescendo, e nos absorvendo, até se transformar na razão de todos os nossos males.
Das saúvas à saúde, tudo era creditado a ela. Salários baixos, miséria, analfabetismo, prostituição, violência…nosso time na segunda divisão do campeonato brasileiro? Culpa da dívida externa.
Até ontem tínhamos a segunda maior dívida do mundo. De repente, não mais que de repente, ouço no rádio, entre perplexo e meio incrédulo, que matamos o dragão.
Temos dinheiro para pagar todos os nossos credores e ainda sobra algum para a cerveja. Podemos, entretanto, não vamos pagar - e não me perguntem o porquê, pois já é querer saber demais.
Só sei que no meu coração de estudante, imaginava que no dia em que o Brasil saldasse a dívida externa o povo sairia às ruas, dançando e cantando em um carnaval que duraria dias.
Nada disso ocorreu. A repercussão dessa histórica notícia limitou-se a artigos nas herméticas páginas de Economia.
Uns, otimistas, comemorando; outros, mais comedidos, aconselhando-nos a colocar as barbas de molho, pois a coisa não é bem assim.
De minha parte, sou otimista, e acredito estarmos à porta do paraíso.
E depois dessa, não duvido que ainda possa receber uma visita virtual da Sharon Stone que, solícita, sentada no sofá da minha sala, cruzará e descruzará as pernas toda vez que eu pedir.
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