Wednesday, December 19, 2007

Tempo, tempo, tempo.


Assim, de repente, enquanto o diabo piscava o olho, chegamos a mais um Natal e outro Ano Novo.

2007 passou rapidinho. 2008 passará mais depressa ainda.

A cada ano, parece que a velocidade do tempo aumenta. Por quê?



Quem me deu a resposta mais convincente a essa pergunta foi o jornalista Mauro Santayanna, com sua invejável cultura auto-didata.

Citando Platão, ele explicou que tudo depende do referencial de cada fase da vida.


Quando temos um ano de idade, para vivermos mais 12 meses temos de atravessar o tempo de uma vida inteira (o ano que já vivemos).

Ao chegarmos aos dez anos, para viver mais um será preciso esperar por apenas 10 por cento de uma vida. Já é bem menos.

Depois de atingirmos os 50, como é o caso deste velho-blogueiro-cansado-de-guerra, um ano significa um ridículo quinquagésimo de uma existência. Passa voando, portanto.

Depois de meio século, a vida passa, mesmo, muito mais depressa. Costumo comparar essa velocidade à dos carrinhos turísticos da Ilha da Madeira.

Na minha adolescência, adorava ir ao Cinerama, sala no centro da cidade na qual passavam filmes que nos davam a sensação de estar dentro da enorme tela.

Entre passeios de montanha-russa, de trem e de outras imagens tão reais que arrancavam gritos da platéia, havia uma reportagem sobre a Ilha da Madeira, em especial sobre os Carrinhos do Monte.

O turista vai sentado dentro de uma espécie de caixote de vime sem rodas, e dois portugueses vão empurrando aquilo ladeira abaixo, como se fosse um tobogã.

Depois dos 50, o tempo desce a ladeira na velocidade desses carrinhos da Ilha da Madeira.

Toda essa filosofia de botequim, meus poucos mas bons leitores, é para avisar que vocês estarão livres de mim até o Carnaval, pois entro em merecidas férias a partir de hoje. 

Boas-festas e feliz Ano Novo. E aproveitem bastante, pois como lembra muito bem Gilberto Gil, “tudo, agora mesmo, pode estar por um segundo”.

Leia também

Na seção Leia também, no lado direito desta página, Frei Betto, Stanislaw Ponte Preta e Ivan Lessa falam sobre o Natal.

Antonio Maria lembra as frases mais ditas em Dezembro, e Luís Fernando Verissimo consola aqueles que não vão viajar.

Divirtam-se.



Este blog está em recesso até o Carnaval. Feliz 2008 a todos!



Posted by JLT at 18:25:51 | Permalink | Comments (35)

Wednesday, December 12, 2007

Liberdade relativa


Pesquisa realizada pelo Serviço Mundial da BBC de Londres apontou que apenas 52% dos brasileiros acreditam que há liberdade de imprensa no País.

Este velho e cada vez mais descrente blogueiro  está entre os demais 48%. Nossa liberdade de imprensa ainda é uma “liberdade relativa”, como se dizia na época da ditadura.

Cito apenas três sintomáticos casos mais recentes: da jornalista Salete Lemos; do bispo Luiz Cappio e - pasmem! - até mesmo deste insignificante blog.

A demissão da jornalista Salete Lemos da TV Cultura me deixou indignado por dois motivos:

O primeiro, porque ela foi mandada embora por pressão dos bancos (o histórico comentário dela está no link ao lado; me digam se ela está mentindo).

Como a TV Cultura é uma emissora pública, imagino que ela só poderia ser mandada embora por pressão do respeitável público, jamais dos banqueiros.

O segundo motivo a me indignar é que isso ocorreu há alguns meses e até hoje não vi um representante dos jornalistas organizar alguma manifestação de solidariedade e protesto pela sua demissão.

Onde estão o Sindicato dos Jornalistas, a Federação Nacional dos Jornalistas, os deputados jornalistas? Parece que esse pessoal só protesta quando a vítima é da patota. Salete não deve ser.


O episódio do bispo Luiz Cappio - que está novamente em greve de fome em protesto contra a transposição do rio São Francisco - foi o primeiro passo em falso da recém-inaugurada TV Brasil.

Em ampla matéria sobre essa gigantesca e polêmica obra, seu noticiário simplesmente ignorou Dom Luiz - definitivamente, um mártir do século 21.

Obviamente, não foi uma ordem do Palácio do Planalto que excomungou o bispo da telinha da nova emissora - aliás, pública, também, como a Cultura.

Provavelmente, foi um caso de auto-censura dos editores do programa. E a auto-censura, convém lembrar, é mais perniciosa do que a própria censura externa, pois nos corrói por dentro.


No caso deste modesto EscutaZé!, ocorreu o seguinte: depois da crônica sobre o livro “A Democracia Pura”, que defendia o fim dos políticos profissionais (publicada no dia 21 de novembro último), as ”newsletters” do blog foram bloqueadas pelo sistema de informática do Senado.

Para quem não sabe, “newsletter” é o nome chique (e colonizado) que o pessoal da Internet dá àquelas “não-solicitadas” chamadinhas que são enviadas a vocês, meus poucos mas bons leitores, com as alvissareiras notícias sobre o tema da semana do blog.

Pode ser que tenham confundido minhas “newsletters” com ofertas de viagra ou de aumento do tamanho do pênis para os mais vetustos senadores.

O mais provável é que tenha sido apenas coincidência. Mas foi muita coincidência.
 


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Posted by JLT at 23:43:02 | Permalink | Comments (42)

Wednesday, December 5, 2007

Domingo Legal


Sempre insisti com meus filhos para torcer somente a favor.

Seja no futebol, seja na política, minha opinião é a de que vibremos apenas pelo nosso time ou candidato. Jamais contra os outros.

Domingo passado, entretanto, flagrei-me com as mãos úmidas de tensão, torcendo contra o Corinthians e o presidente Chávez.

Comemorar a derrota corintiana não foi uma simples manifestação de torcedor rival: foi brindar a derrota do dinheiro-que-tudo-compra. Ou das pessoas-que-tudo-vendem, sei lá.

Não foi justo quando o pessoal da MSI - empresa suspeita de ter ligações com a máfia russa - chegou ao Brasil com as burras cheias de dinheiro para comprar jogadores para o ‘timão’.

Como foi injusto quando a italiana Parmalat - hoje sabe-se que com as mesmas segundas intenções da MSI - montou um time milionário para o Palmeiras.

Um dos sete ou oito leitores deste blog há de perguntar se este velho blogueiro é ingênuo a ponto de acreditar não haver corrupção nos outros clubes, inclusive no seu, o bi-campeão - modéstia à parte.

Se acreditasse nisso, teria de admitir a existência de Papai Noel, cegonha, ou o espírito público dos políticos profissionais.

Nesse caso, lembro a história do comportamento do jornal O Estado de S.Paulo na época da ditadura.

Seus proprietários admitiam ter comunistas em sua redação. Entretanto, quando questionado, Júlio de Mesquita Neto justificava: ”são comunistas, mas são os nossos comunistas”.

Nossos times do coração podem ter cartolas corruptos, é claro; mas, pelo menos, são ”os nossos corruptos”.

Terceiro mandato

Na verdade, não torci contra as reformas constitucionais propostas pelo presidente Chávez - entre as quais estava a semana de 36 horas de trabalho, a qual muito me agrada.

Torci contra o populismo e o caudilhismo tão comuns na América Latina. Torci contra a demolição de um dos pilares da Democracia: a alternância no poder.

Fiquei feliz por não ter passado a proposta de infinita reeleição presidencial, cujo resultado influenciaria outros países latino-americanos, inclusive este nosso ”Bananão” (como o chamava Ivan Lessa).

Imaginem a seguinte situação, caros amigos petistas favoráveis a um terceiro mandato para Lula:

O ano é de 1990. Fernando Collor assumiu a Presidência da República, acertou um esquema de apoio com o Congresso, e criou um programa de bolsa-família para milhões de eleitores.

Além disso, teve um pouco de sorte e a economia mundial ajudou-o a estabilizar a situação aqui dentro.

Ao final de seu primeiro mandato, propôs uma reforma constitucional, permitindo indefinidamente sua reeleição.

Como sua popularidade estava em alta, a maioria dos eleitores, ainda que por uma pequena margem de votos, aprovou a proposta.

Imaginem.


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Posted by JLT at 18:54:11 | Permalink | Comments (45)