A blitz do Serra
O governador José Serra colocou a polícia nas ruas, em São Paulo, na semana passada.
Foi uma megaoperação que parou de vez o trânsito da cidade.
Seu alvo, entretanto, não eram os bandidos: era o dinheiro dos motoristas.
Qual não foi minha surpresa ao ler, depois, nos jornais, que os bandidos caçados eram os cidadãos cujos carros têm placa de outro Estado.
Até o dia das blitze (êta pluralzinho mais estranho ainda!), imaginava que muita gente licenciasse o carro em Curitiba para escapar das multas de trânsito, os espertinhos de sempre.
Ou seja, aqueles que nos congestionamentos nos ultrapassam pelo acostamento, colocam fitinhas na placa no dia do rodízio para confundir o radar e, entre outras demonstrações explícitas de incivilidade, enfiam-se no espaço que precavidamente reservamos para manter uma distância segura do veículo à frente.
A blitz do Serra, porém, me fez descobrir que o motivo da perseguição policial aos pretensos criminosos era outro:
O IPVA (Imposto de Propriedade de Veículos Automotivos) no Estado do Paraná, onde muitos paulistanos licenciam seus carros, é mais barato do que em São Paulo.
Está explicada a atitude do ilustre prócer tucano, ao colocar seu melhor contingente policial nas ruas para emboscar em pontos estratégicos da cidade os indefesos e já combalidos motoristas-contribuintes paulistanos.
O que não está explicado é por que o Paraná pode cobrar menos IPVA do que São Paulo, da mesma forma que as rodovias federais poderão ter pedágios pela metade do preço das paulistas.
Aliás, como já comentou há algum tempo um dos seis ou sete leitores deste blog, só com a arrecadação do IPVA seria possível fazer a manutenção de nossas rodovias - o pedágio seria uma dupla (e inconstitucional) tributação.
A grande imprensa, tão zelosa com seus leitores quando o assunto é carga tributária, tratou as blitze do Serra com discrição.
Foram poucas as vozes que se levantaram na mídia contra mais essa truculenta intervenção do Estado.
(Louve-se aqui Joseval Peixoto, da Jovem Pan, que questionou no ar, por várias vezes, a constitucionalidade da ação).
Gostaria de ver, por exemplo, entre outros, o ‘paladino’ Chico Pinheiro, da Rede Globo, criticar essa atitude de José Serra, no SPTV.
Mas como diria aquele antigo personagem do Jô Soares, q’rias!, pois esse telejornal é patrocinado pelo banco estatal paulista “Nossa Caixa”.
