Wednesday, November 28, 2007

A blitz do Serra


O governador José Serra colocou a polícia nas ruas, em São Paulo, na semana passada.

Foi uma megaoperação que parou de vez o trânsito da cidade.
 
Seu alvo, entretanto, não eram os bandidos: era o dinheiro dos motoristas.

Ao passar por uma dessas blitz (êta palavrinha estranha!) cheguei a elogiar o governador para os meus botões, imaginando que, agora sim, a criminalidade estava sendo combatida.

Qual não foi minha surpresa ao ler, depois, nos jornais, que os bandidos caçados eram os cidadãos cujos carros têm placa de outro Estado.

Até o dia das blitze (êta pluralzinho mais estranho ainda!), imaginava que muita gente licenciasse o carro em Curitiba para escapar das multas de trânsito, os espertinhos de sempre.

Ou seja, aqueles que nos congestionamentos nos ultrapassam pelo acostamento, colocam fitinhas na placa no dia do rodízio para confundir o radar e, entre outras demonstrações explícitas de incivilidade, enfiam-se no espaço que precavidamente reservamos para manter uma distância segura do veículo à frente.

A blitz do Serra, porém, me fez descobrir que o motivo da perseguição policial aos pretensos criminosos era outro:
 
O IPVA (Imposto de Propriedade de Veículos Automotivos) no Estado do Paraná, onde muitos paulistanos licenciam seus carros, é mais barato do que em São Paulo.

Está explicada a atitude do ilustre prócer tucano, ao colocar seu melhor contingente policial nas ruas para emboscar em pontos estratégicos da cidade os indefesos e já combalidos motoristas-contribuintes paulistanos.

O que não está explicado é por que o Paraná pode cobrar menos IPVA do que São Paulo, da mesma forma que as rodovias federais poderão ter pedágios pela metade do preço das paulistas.

Aliás, como já comentou há algum tempo um dos seis ou sete leitores deste blog, só com a arrecadação do IPVA seria possível fazer a manutenção de nossas rodovias - o pedágio seria uma dupla (e inconstitucional) tributação.

A grande imprensa, tão zelosa com seus leitores quando o assunto é carga tributária, tratou as blitze do Serra com discrição.

Foram poucas as vozes que se levantaram na mídia contra mais essa truculenta intervenção do Estado.
 
(Louve-se aqui Joseval Peixoto, da Jovem Pan, que questionou no ar, por várias vezes, a constitucionalidade da ação).

Gostaria de ver, por exemplo, entre outros, o ‘paladino’ Chico Pinheiro, da Rede Globo, criticar essa atitude de José Serra, no SPTV.
 
Mas como diria aquele antigo personagem do Jô Soares, q’rias!, pois esse telejornal é patrocinado pelo banco estatal paulista “Nossa Caixa”.


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Wednesday, November 21, 2007

Democracia Pura



A Editora Nobel está lançando um livro interessante: Democracia Pura, do professor e filósofo José Ramos Vasconcelos.

Não conheço o autor, nem li o livro. Mas já gostei dos dois.

Principalmente pela sua proposta básica: a extinção dos políticos profissionais.

Segundo o professor Vasconcelos, “as atuais democracias representativas estão longe de permitir o exercício da soberania popular”.

Essa foi a sua conclusão após anos de pesquisa sobre a participação do cidadão no processo democrático.

Por isso, em seu livro, ele defende a viabilidade da democracia pura, mediante a reestruturação do governo, com o auxílio da informática.
 
Pela sua proposta, o povo participaria diretamente do processo decisório através dos sistemas democráticos de auto-habilitação, por sorteio, graduação, concurso ou por meio de todos esses processos.
 
“Voltaríamos a ter o Conselho dos Cidadãos”, explica o prof. Vasconcelos, ressaltando que isso só será possível com a extinção dos políticos profissionais.

Calma, meus poucos mas bons leitores: a extinção dos políticos profissionais seria apenas formal, e não física - via paredão, bombas químicas ou fogueira - como muitos gostariam.

Em um país onde a droga não é pura, a bebida não é pura, a gasolina não é pura, o leite não é puro, a proposta do professor Vasconcelos soa romântica.

Ela vem ao encontro da não menos romântica idéia deste blogueiro de criação do “eleitor-sênior”. Para quem ainda não a conhece, explico: 

Cada parlamentar teria um grupo de eleitores cadastrados (algumas centenas), os quais monitorariam e decidiriam os votos de seus representantes pela Internet - seriam os “eleitores-seniores”.

Por causa dessa proposta, considerava-me, até agora, o último romântico. Conforta-me saber que não estou sozinho.


Aborto e criminalidade

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral - a quem não prezo nem desprezo -, quase foi crucificado ao ligar a descriminalização do aborto à diminuição da criminalidade, no Rio de Janeiro.

Domingo passado, na Revista da Folha, o psicanalista Francisco Daudt - que também não prezo nem desprezo, mesmo porque nunca vi mais gordo -, em determinado trecho de seu artigo sobre as mães, escreveu:

“Steve Levitt, em seu livro Freakonomics, demonstrou que filhos indesejados se destinam à marginalidade, sejam dos pobres ou sejam dos ricos, e que o direito ao aborto desses filhos foi fundamental para a redução da criminalidade nos EUA”.


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Posted by JLT at 22:20:57 | Permalink | Comments (24)

Wednesday, November 14, 2007

Cinema nacional


A propósito da prisão, semana passada, de um grupo que ”vendia” facilidades no Ministério da Cultura, meu amigo Lyra Galvão defendeu sua tese sobre o cinema nacional:

- Sabe por que os filmes brasileiros são ruins?, perguntou-me, dia desses, adiantando ele próprio a resposta:

- Por causa dos incentivos fiscais, por causa do apoio que recebe do governo.

Para dizer a verdade, não considero o cinema brasileiro ruim. Não diria que é ótimo, mas entre os melhores filmes que já assisti na vida, incluo alguns nacionais.

Achei “Tropa de Elite”, por exemplo, um bom filme, assim como “Noel, o Poeta da Vila”, atualmente em cartaz nas salas da cidade.

O primeiro - confesso! não precisa do saco plástico! - vi em uma cópia pirata que ganhei de uma pessoa querida.

Não compraria jamais essa cópia de um ambulante, nas ruas. Mas também não ia jogá-la fora e esperar a oportunidade para ver o filme no cinema.

Já que estava ali, na minha estante, numa segunda-feira chuvosa, acabei inserindo-a no aparelho de DVD. Antes, para aliviar a consciência, prometi a mim mesmo ressarcir os produtores, de alguma forma, um dia qualquer. 

Mas voltemos ao tema principal desta prosa: as razões que, segundo o Lyra, tornam o cinema nacional ruim. Têm sua lógica, como ele explica:

- Os produtores não têm compromisso com a bilheteria. Eles conseguem o incentivo fiscal do Governo, captam o recurso para fazer o filme, mas, antes, já separam a sua parte.

- Assim - prossegue - mesmo que o filme seja um fracasso de bilheteria, eles já garantiram o seu. Não precisam se esmerar para fazer um filme que, realmente, agrade ao grande público.

Sou obrigado a concordar. Tem razão, o meu amigo. Mesmo assim, defendo várias exceções do cinema brasileiro. Entre elas, ”Cidade de Deus” e ”Central do Brasil”.

Lembro, aliás, que ao longo de minha nobre existência, duas comédias me fizeram realmente gargalhar de perder o fôlego: uma, a americana ”Deu a Louca no Mundo”, dos meus tempos de adolescente; a outra, a brasileiríssima “O Auto da Compadecida”.

Tem mais um filme, nessa lista de comédias, que me fez rir até doer o estômago: ”Dounbailó”, protagonizado pelo Roberto Benigni. Comecei a rir tanto que, a partir de um certo momento, eu ria do filme, e a platéia, de mim.

Quase entrei em pânico, com medo de sair do cinema carregado por dois enfermeiros e ser levado de camisa-de-força ao manicômio mais próximo por não conseguir parar de rir.

Nesse caso, porém, o motivo de tanto riso não era o filme em si, mas o efeito de um medicamento que eu começara a tomar naquela semana.

Antes que algum capitão Nascimento de plantão pergunte, em tom irônico, que “remedinho” era esse, já vou logo esclarecendo: era legal, comprado na farmácia, com receita médica e tudo.


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Posted by JLT at 20:40:25 | Permalink | Comments (23)

Wednesday, November 7, 2007

O terceiro mandato



Quando Lula foi candidato a presidente contra José Serra, em 2002, defendi neste blog sua eleição.

Acreditava no aperfeiçoamento da democracia por intermédio da alternância do poder.

Agora já se fala em terceiro mandato.

Como diz uma amiga minha, “bem feito: foi ajudar e se ferrou”! 


Ler os jornais sobre esse tema, estes dias, chega a ser esquizofrênico. Em uma página, você fica convencido de que Lula não quer o terceiro mandato de jeito algum; na página seguinte, se convence do contrário.

Na verdade, o que estão fazendo se chama balão-de-ensaio: lançam a tese assim como quem não quer nada. Se colar, colou.

Quem levantou a possibilidade de permitir uma terceira reeleição foi o deputado federal Devanir Ribeiro, do PT.

Conheço o Devanir desde a época das greves do ABC, no início da década de 80.

Era um sindicalista íntimo do “baiano”, como alguns companheiros chamavam, na intimidade, o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Luís Inácio da Silva.

Por isso, não acredito que Devanir esteja agindo por conta própria.

Tem um dedo do “baiano”, aí - e não é o mindinho da mão esquerda.

O padre apedrejado!

Acho que descobri porque a imprensa - e o público em geral - condena alguns personagens da vida pública antes mesmo de um julgamento formal, feito por quem de direito e competência, ou seja, a Justiça.

No fundo, ao tomar conhecimento de que um rabino furtou, um padre é pedófilo, uma bispa foi presa, um petista é corrupto, consolamo-nos a nós próprios.

Aqueles que se apresentam como guardiães das virtudes acabam nos incomodando.
 
Afinal, por que não somos bons como eles? Por que carregamos dentro de nós tantos pecados? Por que não resistimos e cedemos tantas vezes às tentações da carne?

Acostumados a tomar conhecimento pela mídia das virtudes públicas desses personagens, quando descobrimos seus vícios privados nos aliviamos: ufa! não somos tão maus assim.

Mentiras inconvenientes

Passou meio despercebido pela grande mídia.

O documentário “Verdades Inconvenientes”, do ex-vice-presidente americano Al Gore, tem nove erros científicos, segundo apurou um juiz da Alta Corte da Grã-Bretanha.

O filme, que deu o Oscar a Al Gore, está sendo passado nas escolas inglesas, mas, de acordo com determinação daquela Corte, os professores devem alertar os alunos sobre os erros.

Na verdade, como a causa é nobre (a luta contra o aquecimento global) chamam de erros científicos o que deveriam chamar, no mínimo, de inverdades.

Como se vê, político mente em qualquer parte do mundo.

Mais detalhes no endereço: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/10/071011_algoreerros_pu.shtml


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Posted by JLT at 18:30:04 | Permalink | Comments (37)