Thursday, July 26, 2007

A primeira arremetida

A primeira arremetida a gente nunca esquece. Principalmente quando ao seu lado estão sentados o dono do avião, o falecido comandante Amaro Rolim, fundador da TAM, e o então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Matos.

Isso aconteceu há muito tempo. O Matusalém ainda era um menino, e eu um jovem repórter escalado para cobrir a primeira viagem, no Brasil, do Fokker 200 - um turbo-hélice recém importado da Holanda.

Obviamente, eu não entendia nada de aviação. Minha única experiência sobre o assunto vinha dos tradicionais passeios a Congonhas para tomar um cafezinho - um ’programão’, na minha adolescência.

Na verdade, fui escalado para cobrir esse vôo inaugural porque o todo poderoso, na época, ministro Delfim Neto também estaria à bordo. Valeria uma entrevista.

O ministro não apareceu. Mesmo assim, preferi o passeio a Ribeirão Preto (cidade do interior paulista) a voltar para a redação e encarar uma nova pauta. Quem sabe, daria tempo de um chope no famoso Pinguim.

Na ida, as autoridades foram no Fokker e os jornalistas, atrás, em um Bandeirantes. Na volta, a situação se inverteu. Ao lado do comandante Rolim e do ministro da Aeronáutica, lá viemos nós para São Paulo, todos contentes, de avião novo.

Logo depois da decolagem, estranhei um pouco quando vi a aeromoça passar a todo instante um paninho para secar a água que escorria do ar-condicionado. Mas deixei para lá.

O susto viria alguns minutos depois. Olhando pela janelinha, vi que muito antes de chegar a São Paulo o piloto já havia baixado o trem-de-pouso. Fiquei imaginando se ele estaria familiarizado com todos os botões da nova aeronave. 

Ainda estava meio ressabiado quando começaram a aparecer os prédios da cidade, a Marginal Pinheiros, meu bairro e, por fim, o Shopping Ibirapuera, que fica ao lado do aeroporto de Congonhas. Apertei o cinto. 

Nisso, um amigo sentado atrás de mim bateu no meu ombro e falou baixinho: “Zé, avisa o piloto que é para baixar o trem-de-pouso, não é para levantar”.

Olhei para fora e, pasmem, vi o trem-de-pouso se recolhendo. Confesso: o otário aqui caiu na pegadinha. Por um segundo, fiz menção de procurar a aeromoça para avisá-la do engano.

Imediatamente, porém, senti o avião acelerando e subindo novamente. Foi preciso arremeter, explicou em seguida, o comandante Rolim, pois um avião da Vasp ainda taxiava na pista no momento da nossa aterrisagem. 

Conheci naquele dia o significado da palavra arremeter.

Uma semana depois, o jornalista Élcio Carvalho, da Folha de S.Paulo, dava uma manchete denunciando que o Fokker-200 importado pela TAM não era novo, como anunciaram. Era um aparelho reformado, ou “zerado”, como se diz no setor. 

Foi quando aprendi outra coisa sobre aviação: a não acreditar na palavra da TAM. Além do que é difícil confiar em uma empresa cujo próprio dono morre pilotando uma aeronave.

Pingos nos Is 

Entendamo-nos bem. Em nenhum momento na crônica da semana passada este blogueiro metido a papai-sabe-tudo culpou o presidente Lula pelo desastre do vôo 3054.

Disse que alguém - sujeito indeterminado - deveria ter ordenado o fechamento de Congonhas durante as chuvas de segunda-feira passada, como reza o procedimento de segurança (implantado agora, depois da tragédia).

Reafirmo minha opinião - que não vale nada, ressalte-se - de que essa decisão teve motivação política.

Acredito que a pista molhada e sem ranhuras contribuiu para o acidente, ainda que possa haver outro fator decorrente de falha técnica ou humana. Não é preciso ser especialista para deduzir isso. Basta ter olhos para ver.

Aproveito a oportunidade - que democraticamente eu mesmo me dou -para repudiar a batalha suja que alguns petistas e alguns tucanos travam nos bastidores para lucrar politicamente sobre corpos carbonizados.


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Posted by JLT in 00:49:14 | Permalink | Comments (16)

Wednesday, July 18, 2007

Pais-patrões

O presidente Lula disse em seu programa de rádio que ficou triste por causa das vaias na abertura dos Jogos Panamericanos.

Um vizinho do prédio onde eu morava também agia assim com seus filhos. Quando eles faziam alguma coisa errada, ele não ficava bravo, não os castigava: ficava triste.

Meu pai não ficava bravo. Ele era bravo. Nunca bateu nos filhos, mas ouvi-lo ralhar já era punição suficiente. Custou-me boas horas de análise mais tarde na vida.

Qualquer um desses casos denota uma atitude autoritária. Seja a atitude do meu pai, do meu vizinho ou do presidente Lula.

Tanto o pai severo quanto o chantagista emocional (que se diz ‘triste’) buscam um único objetivo: cercear a liberdade do filho, impor-lhe um comportamento, enquadrá-lo, seja pelo medo, seja pela culpa.

Foi mais ou menos isso o que levou o escritor e psicólogo Roberto Freire a declarar - para espanto de muita gente - que o amor também oprime.

Procurei ser assertivo na educação da minha pequena prole, tentando fugir desses dois tipos de comportamentos repressores.

Nem sempre consegui, é verdade, pois filhos, como se sabe, nascem com o talento de fazer os pais perderem a cabeça.

Mesmo assim, acredito que precisarão de menos horas de terapia do que eu.

 

Apelo consumista

Um jogador de handebol da equipe cubana desertou e fugiu para São Caetano. Foi do Rio de Janeiro ao ABC paulista de táxi.

Imagino que já tenha se arrependido ao passar pelas estreitas e sinuosas ruas da Favela de Heliópolis, na divisa daquele município com São Paulo.

Milhões de pessoas abandonam seus países em busca de uma vida melhor. No caso de atletas isso é muito comum.

Para ficar apenas no handebol: a goleira da seleção brasileira, por exemplo (cujo nome pudicamente me recuso a escrever), joga na Dinamarca.

O problema é que em Cuba, como ocorria antigamente na União Soviética, os cidadãos são proibidos de deixar o país.

O raciocínio comunista é simples: eles são educados e formados com o dinheiro do povo. Não é justo que fujam com esse ‘investimento’ para auferir lucros apenas em benefício próprio.

O desertor cubano tinha uma vida em seu país invejável para milhões de jovens brasileiros: casa, comida, roupa, saúde e educação de graça. Sua única obrigação era jogar handebol. Mais nada.

Fico imaginando que sonhos lhe seduziram para trocar Havana por São Caetano. Pior: se ele for jogar handebol no Brasil vai ter de morar em um barraco da vizinha Heliópolis.


Acidente anunciado (segundo clichê)

Foi a crônica do acidente anunciado. A pista principal do Aeroporto de Congonhas ainda não estava com o seu sistema de drenagem completamente pronto. Pelo procedimento de segurança, aterrisagens e decolagens deveriam ser suspensas ali, quando estivesse chovendo. Nos últimos dias, duas ou três aeronaves já haviam derrapado e quase caído na avenida 23 de Maio por causa da pista molhada. Alguém quis poupar o governo de outro desgastante caos aéreo por mais um fechamento de Congonhas e deu no que deu. Não é preciso ter caixa-preta nem ser muito bom em lógica para deduzir que as causas do acidente desta terça-feira com o Airbus da TAM foram políticas. 


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Posted by JLT in 23:46:12 | Permalink | Comments (19)