A primeira arremetida
A primeira arremetida a gente nunca esquece. Principalmente quando ao seu lado estão sentados o dono do avião, o falecido comandante Amaro Rolim, fundador da TAM, e o então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Matos.
Isso aconteceu há muito tempo. O Matusalém ainda era um menino, e eu um jovem repórter escalado para cobrir a primeira viagem, no Brasil, do Fokker 200 - um turbo-hélice recém importado da Holanda.
Obviamente, eu não entendia nada de aviação. Minha única experiência sobre o assunto vinha dos tradicionais passeios a Congonhas para tomar um cafezinho - um ’programão’, na minha adolescência.
Na verdade, fui escalado para cobrir esse vôo inaugural porque o todo poderoso, na época, ministro Delfim Neto também estaria à bordo. Valeria uma entrevista.
O ministro não apareceu. Mesmo assim, preferi o passeio a Ribeirão Preto (cidade do interior paulista) a voltar para a redação e encarar uma nova pauta. Quem sabe, daria tempo de um chope no famoso Pinguim.
Na ida, as autoridades foram no Fokker e os jornalistas, atrás, em um Bandeirantes. Na volta, a situação se inverteu. Ao lado do comandante Rolim e do ministro da Aeronáutica, lá viemos nós para São Paulo, todos contentes, de avião novo.
Logo depois da decolagem, estranhei um pouco quando vi a aeromoça passar a todo instante um paninho para secar a água que escorria do ar-condicionado. Mas deixei para lá.
O susto viria alguns minutos depois. Olhando pela janelinha, vi que muito antes de chegar a São Paulo o piloto já havia baixado o trem-de-pouso. Fiquei imaginando se ele estaria familiarizado com todos os botões da nova aeronave.
Ainda estava meio ressabiado quando começaram a aparecer os prédios da cidade, a Marginal Pinheiros, meu bairro e, por fim, o Shopping Ibirapuera, que fica ao lado do aeroporto de Congonhas. Apertei o cinto.
Nisso, um amigo sentado atrás de mim bateu no meu ombro e falou baixinho: “Zé, avisa o piloto que é para baixar o trem-de-pouso, não é para levantar”.
Olhei para fora e, pasmem, vi o trem-de-pouso se recolhendo. Confesso: o otário aqui caiu na pegadinha. Por um segundo, fiz menção de procurar a aeromoça para avisá-la do engano.
Imediatamente, porém, senti o avião acelerando e subindo novamente. Foi preciso arremeter, explicou em seguida, o comandante Rolim, pois um avião da Vasp ainda taxiava na pista no momento da nossa aterrisagem.
Conheci naquele dia o significado da palavra arremeter.
Uma semana depois, o jornalista Élcio Carvalho, da Folha de S.Paulo, dava uma manchete denunciando que o Fokker-200 importado pela TAM não era novo, como anunciaram. Era um aparelho reformado, ou “zerado”, como se diz no setor.
Foi quando aprendi outra coisa sobre aviação: a não acreditar na palavra da TAM. Além do que é difícil confiar em uma empresa cujo próprio dono morre pilotando uma aeronave.
Pingos nos Is
Entendamo-nos bem. Em nenhum momento na crônica da semana passada este blogueiro metido a papai-sabe-tudo culpou o presidente Lula pelo desastre do vôo 3054.
Disse que alguém - sujeito indeterminado - deveria ter ordenado o fechamento de Congonhas durante as chuvas de segunda-feira passada, como reza o procedimento de segurança (implantado agora, depois da tragédia).
Reafirmo minha opinião - que não vale nada, ressalte-se - de que essa decisão teve motivação política.
Acredito que a pista molhada e sem ranhuras contribuiu para o acidente, ainda que possa haver outro fator decorrente de falha técnica ou humana. Não é preciso ser especialista para deduzir isso. Basta ter olhos para ver.
Aproveito a oportunidade - que democraticamente eu mesmo me dou -para repudiar a batalha suja que alguns petistas e alguns tucanos travam nos bastidores para lucrar politicamente sobre corpos carbonizados.